sábado, 21 de março de 2009

Letargia

Observei as bolhas se formarem no fundo do copo. Quinto chope. As bolhas ficam mais brilhantes e os reflexos mais opacos. Até ali eu me lembrava de ter negligenciado nosso relacionamento. Todas as vezes em que eu não me fiz presente. Todas as vezes em que eu a deixei na escuridão da dúvida. O álcool e o orgulho foram roendo minhas memórias. E eu cheguei até a acreditar que eu tinha feito o meu melhor. Acreditei que eu podia deixar tudo por conta do “amor”, que ele bastaria. A razão, ainda que falsa, era mais uma vez minha. Pensei que eu tinha feito certo, sim. Pensei que eu estava tentando melhorar todos os dias, sim. Entornei o copo e me desfiz num choro doído. Enegreci o mar de amor azul que me rodeava, envenenei a água que agora não mais podia matar minha própria sede.

De súbito, Friedrich, a raposa, me pegou pelas mãos. Levou-me até um quarto sem janelas, sem móveis, sem luz. Sussurrou no meu ouvido: morre de sede no mar, morre de sede no mar. Fechei os olhos e vi você, envolta no coração Dele. E eu estiquei meus braços na direção da cruz. Não para iluminar minha escuridão, mas para encontrar você, meu grande Amor. Encontrá-Lo seria encontrar você. Ajoelhei-me de forma nada familiar, e pedi a Ele que não me permitisse negá-Lo em momento algum. Entreguei-me pois, ao Sagrado, para o Amor Dele me levar até você. E a raposa sorriu.

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