Senhor
E o bêbado me encarava com aquele sorriso podre. O velhote mendigava por ali, eu acho. Nunca o vi na minha frente, nunca olhei pelos retrovisores. Melhor assim, para mim. “É Doutor, o senhor está fazendo uma coisa muito errada.” Dessa vez, por mais que eu tentasse, eu não conseguia fazer ele sumir. “Doutor, Deus não faz gosto disso que o senhor anda aprontando.” Comecei a suar. Sempre fui discretíssimo. Minha esposa nunca desconfiou de nada. E agora esse safado vem com essa conversa. Não acho certo enganar ninguém, mas não existe amor errado, existe? Ora, convenhamos, no meu lugar você faria o mesmo! As crianças não tem idade para compreender uma separação. Eu sei como é, afinal, meus pais são separados. Então eu tenho que suportar tudo calado. É o mais correto a se fazer. Tudo ao seu tempo. As cinzas do meu cigarro caíram na minha calça. Agora que eu percebi, ele se queimou inteiro sem que eu tivesse dado sequer uma tragada. Me peguei pensando na trepada de ontem. Nossa, aquela menina sabe chupar! “Doutor, o senhor sabe que até mesmo o Diabo encontra justificativa para os seus atos na Bíblia?“ Mas que merda! Eu teria quebrado a cara desse infeliz, mas a verdade é que ele parecia olhar através de mim como se eu não tivesse carne. Senti um espasmo na alma. Tantos muros e máscaras construidos a duras penas com dissimulação e mentiras, e agora um qualquer vem e me rouba a verdade como se batesse minha carteira. Os meninos não merecem discussões intermináveis, disputa pela guarda, disputa pelo cachorro, disputa pelo carro, disputa pela casa. Faço isso pelos meninos, me sacrifico assim pelos meninos. Respiro fundo, sinto o perfume da minha gostosa no colarinho da minha camisa. “Doutor, o mundo vai acabar, uma hora a conta terá que ser paga.” Agora chega! Me levanto, pago a conta, saio rápido sem olhar para trás. Essa cidade está cheia de pessoas que não respeitam a privacidade de ninguém. Todo mundo quer julgar todo mundo. Hum, estou tenso, preciso me aliviar. Essa pensação toda me cansou. Preciso de uma foda. Infelizmente, eu sei que vou ter que me virar sozinho, ainda bem que assino a Playboy. Ao menos para isso meu salário de fome dá. Hoje vou acabar com uma daquelas coelhinhas photoshopadas! Vou por cima, vou por baixo, vou de lado, vou de tudo quanto é jeito e sem preliminares. Beijinho, carinho, papai e mamãezinho, essa coisa romantiquinha de adolescente, ou melhor, de criancinha não me serve mais. “Depois que você conhece uma mulher de verdade, essas meninas de quinze anos passam a ter gosto de isopor” - murmuro enquanto dirijo sem ver a estrada. Chego em casa na ponta dos pés, achando que eu não estou fazendo barulho. Toda a casa dormia. Se fosse sempre essa paz, acho que eu não procuraria por bunda nenhuma na rua.
Senhora
A cartomante estava em transe. “A senhora vive com uma dúvida.” Senti um leve rubor na minha face. Mas de qualquer forma, o que ela dizia era genérico demais. Ela não tinha como saber da minha vida. “A senhora está dividida entre o certo e o errado.” Me vi cega, jogada numa tempestade de areia. Talvez ela realmente soubesse do que acontecia no meu coração. Eu olhava para as cartas dispostas na mesa, mas para mim elas não diziam nada. Mas a vidente falava direto com a minha dor, expunha a angustia que eu tentava esconder. Meu marido não suportaria o fim do nosso relacionamento. Tantas vezes eu o maltratei com as minhas infantilidades. Machuquei-o, humilhei-o. Ainda assim ele sempre permaneceu ao meu lado. Não sei se é falta de amor próprio, pois às vezes eu sinto como se ele me exibisse como um troféu. Hoje eu vivo a pagar minha penitência por todo o mal que eu fiz a ele. Ser um adorno, uma marionete, isso não me importa. Eu mereço que ele me trate assim. Enquanto ele quiser eu estarei sob dele. Não posso me entregar aos meus desejos egoístas sem pensar nele. Cheguei até o meu limite com esse sonho. Nos braços de outro eu nasci. De maria-chiquinhas, me lambuzei de beijos melados com drops de frutas, de cinta-liga chicoteei suas costas nuas até sangrá-lo. Fui princesa nos banquetes mais requintados, fui prostituta na garagem do seu prédio. Me deliciei com seus cortejos de cavalheiro, com o seu gozo a escorrer pelo canto da minha boca. “A senhora veio até aqui procurando uma resposta para esta dúvida que a persegue.” Nossa! Como de repente a minha vida deformada foi parar em cima desta mesa? Bastava saber ler, minha história estava ali. Me senti nua, envergonhada. Levantei-me derrubando os enfeites do balcão atrás de mim. Peguei as notas na carteira sem identificá-las direito. Joguei o dinheiro e saí tropeçando na cadeira. Meu Deus, essa bruxa me virou do avesso! Essas pessoas deviam ser proibidas de entrar assim na vida dos outros. Entrei no carro e busquei rapidamente a rodovia. Tudo o que eu queria agora era me deixar ficar na banheira. Relaxar sem pensar. Dormir sem sonhar. Antes disso, fazer amor com meu marido. Nada daquela montanha russa, das mordidas esfomeadas, dos arranhões a marcar a propriedade, de línguas a desencadear taquicardias. Afinal, amanhã eu tenho que acordar cedo. Preciso arrumar a casa, lavar a roupa, não posso me dar ao luxo de uma noite intensa assim. Tenho minhas obrigações.
(este texto foi finalista do 3º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais - www.guemanisse.com.br)