quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Michi (To You All)



A seu coração
A seu coração
Alcance, alcance, alcance
Meu coração
A seu coração
Para alcançá-lo,
Eu canto.

Como sempre,
Quando passo por uma esquina,
Me misturo a um mar de pessoas,
E tudo perde o sentido.

Eu me perco completamente,
E não encontro palavra alguma.
Mesmo assim, sua voz
Ainda permanece, ainda permanece.

Tudo sobre você, seu sorriso, sua raiva.
Me estimula a continuar em frente.
Bastando olhar para cima, onde pairam as nuvens...

Aposto que entende o que estou dizendo
Aposto que entende o que estou dizendo

Minha vida foi vaga
meu coração foi aspero
Sobre isto, olhe adiante
uma pessoa querida está lá.
se você ficar perdida,
Eu serei seu trajeto, te guiando
Somente se você acreditar.

Certificando-se de suas maneiras
sem medo
Reunindo a luz e disparando cruzado no céu
Compreendendo você.
E o trajeto que nós andamos reluzirá mais brilhante

Onde quer que vá…
Onde quer que vá…
Onde quer que vá…
Onde quer que vá…

Seja onde for... seu cabelo, sua voz, sua boca, as
pontas dos dedos... encontraremos
Por agora, isto é perfeito (Por agora, isto é perfeito)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os gurus e as modinhas

Estou navegando pelo site da HSM Management, uma organização mundial que diz possuir “o melhor conteúdo de management” para você, meu caro empreendedor. Lendo um artigo intitulado “Você é resistente emocionalmente?” (http://br.hsmglobal.com/notas/55027-voc%C3%AA-e-resistente-emocionalmente-) fiquei impressionado pela facilidade que as modinhas são adotadas e pela falta de critério dos leitores. A palavra da moda é: “resiliência”.

Assim como em inúmeros outros artigos que li nos últimos tempos, aqui o termo "resiliência" não foi corretamente usado. Inicialmente, o autor define como resiliência: "a capacidade de usar a força de uma adversidade a seu favor" para finalizar com: "o que o mercado mais quer são profissionais que tenham resistência a frustrações”. Mas resiliência não é resistência.

Na verdade, resiliência é a propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida quando cessa a tensão causadora de tal deformação elástica. Então não há que se falar em resistência a frustrações, pois o objeto resiliente não resiste, ele se deforma, indo aos extremos da ruptura e retorna ao eixo quando é suspensa a tensão causadora. Além disso, as adversidades não são utilizadas a nosso favor, pois esticamos, nos deformamos, porém, retornamos ao nosso ser essencial. Cessada a tensão, o objeto resiliente volta a forma original e não melhor ou pior.

O conteúdo da matéria me parece mais pertinente ao conceito de Inteligência Emocional: "... capacidade de identificar os nossos próprios sentimentos e os dos outros, de nos motivarmos e de gerir bem as emoções dentro de nós e nos nossos relacionamentos." (Goleman, 1998). Aliás, inteligência emocional já foi modinha outrora, assim como calças boca de sino, pogobol e cigarrinhos de chocolate.

Os comentários dos leitores deste artigo que citei mostram bem como uma pessoa é alçada ao posto de guru, mesmo tendo escrito um texto com um erro imperdoável para o nível do veículo. Ao contar sua história de vida (sofrida), o autor foi transformado em ídolo e o conteúdo do artigo foi tomado como verdadeiro pela grande maioria que em momento algum parou para refletir sobre os conceitos que ele expunha.

Sejamos críticos com a informação, mesmo que ela venha de alguém: terapeuta comportamental, urbanista, economista e administrador de Empresas. Pós graduado em Marketing e especialista em gerenciamento de cidades e psicolingüística pela Fundação Napoleon Hill Tecnology (EUA) e que atualmente, é diretor da Escola de Executivos e Negócios Master Mind. Pensar é requisito para empreender, pense nisso.

Empreendedor ou empresário?

Esta semana me deparei com um texto do Sr. Antonio Carlos Gomes da Costa (http://www.odebrechtonline.com.br/materias/00601-00700/616/), colunista da Revista Odebrecht Informa, onde o mesmo falava sobre o conceito da palavra “empresário” utilizado na obra: Tecnologia Empresarial Odebrecht (TEO). A TEO é tida pelos funcionários da Organização Odebrecht como uma verdadeira filosofia de vida e foi concebida por Norberto Odebrecht, figura central da organização.

No artigo referido, o Sr. Antonio Gomes afirma que: “para Norberto Odebrecht, ser empresário é algo maior e mais complexo do que ser empreendedor”. Discordo da definição adotada, pois para defender seu ponto de vista, o autor afirma que: “empreendimento é uma ação delimitada no tempo e dotada de objetivos bem-especificados, os quais, uma vez alcançados, podem não justificar mais a continuidade da iniciativa.” Porém, esta é a definição de “projeto” e não de “empreendimento”. Se procurarmos no dicionário encontraremos como definição de “empreender”: resolver-se a praticar; pôr em execução; realizar, fazer. Ou seja, a limitação de tempo adotada pela Odebrecht não existe.

Possuir uma empresa já qualifica uma pessoa como empresário, mas nem todo empresário é um empreendedor. Na literatura sobre o tema, um elenco de virtudes aparece sempre associado aqueles ditos empreendedores: otimista, corajoso, analítico, pro ativo, persistente, criativo, dedicado, assertivo, apaixonado, inovador, líder, etc.

Resumindo; nem todo empreendedor é um empresário e nem todo empresário é um empreendedor. Mas acredite, empresa nenhuma vai prosperar sem que seus colaboradores possuam espírito empreendedor. Imagino que Esopo narraria assim sua fábula nos dias atuais:

“A Formiga Empresária estava tranqüila, pois havia economizado recursos suficientes para sobreviver a sazonalidade do seu negócio. Ao ouvir a campanhia, logo imaginou ser a dona Cigarra pedindo mais uma vez por ajuda. Ela então ensaiou o velho discurso mentalmente, antes de abrir a porta - amiga Cigarra, os tempos de bonança gastaste em diversão, então cantar e bailar é comida saborosa e de bom gosto para você.

A Formiga Empresária abriu a porta de sua casa e se surpreendeu. A Cigarra não estava passando necessidades, pelo contrário, ela estava vestida feito uma atriz de Hollywood. Prestando mais atenção, ela notou a reluzente Ferrari vermelha estacionada na frente de seu portão e se deu conta de que a dona do veículo estava ali na sua frente, sorrindo largamente. A Cigarra, percebendo o espanto da Formiga Empresária, pôs-se a explicar – amiga Formiga veja só como é a vida. Eu sempre gostei de cantar, então montei um projeto para construção de um sistema para que outras pessoas que também gostam de cantar pudessem comercializar suas músicas. Montei o projeto, consegui um investidor e já estamos faturando milhões! Vendemos no mundo inteiro através da internet!

A Formiga Empresária então exclamou: mas eu nem sabia que você havia se tornado empresária como eu! - e a Cigarra: empresária eu não sou, pois nem empresa eu tenho, apenas fiz um projeto. Agora, empreendedora eu sempre fui! Pois eu sempre soube que um dia eu iria transformar minhas visões em realidade.”

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Innovate planeja captar R$ 3 mi para empresas da cidade

A Innovate, empresa mariliense especializada na captação de recursos para projetos inovadores, pretende angariar no próximo ano subsídios federais na ordem de R$ 3 milhões para capitalizar as empresas de Marília e região.

Neste ano, a Innovate conseguiu a aprovação de R$ 240 mil não reembolsáveis (a fundo perdido) e mais R$ 240 mil a juros zero para empresas da cidade. Segundo Alexandre Myamoto, sócio-proprietário da empresa, em virtude deste sucesso a carteira de clientes da Innovate teve um crescimento de 500%, número que anima o empresário com relação às projeções para o próximo ano.

“Para nós, 2010 já começou. Estamos trabalhando duro para que todos os projetos dos nossos clientes sejam aprovados pelo Governo Federal no ano que vem”, afirmou.

Aqueles que têm uma boa ideia mas não tem recursos podem obter mais informações sobre planos de negócios, financiamentos e subsídios no site da empresa: www.innpmo.com.br ou através do telefone: (14) 3221-7067.

“Eu precisava de recursos para poder desenvolver um projeto que alavancasse minha empresa. Contratei os serviços da Innovate que desenvolveu um projeto e conseguimos benefícios financeiros no valor de R$ 120 mil a fundo perdido e mais R$ 120 mil a juros zero”. (Leandro Cervelin – JPTrends – Tecnologia da Informação”

“Meu sonho era de ter meu próprio negócio. Não sabia como começar e nem como fazer. Fiquei sabendo dos serviços da Innovate, que realizou com total eficiência o desenvolvimento do projeto para minha empresa. Agora terei apoio governamental para ter minha própria empresa.” (Fagner Paes - Best Code – Qualidade de Software)

“Minha empresa presta consultoria e assessoramento em serviços de análise e desenvolvimento de sistemas para internet. Estava necessitando de transporte para poder expandir o meu negócio. Foi aí que resolvi procurar a Innovate que me orientou e desenvolveu um projeto junto ao Banco do Brasil para aquisição de veículos.” (Joacir Gonçalves dos Santos – SSTecnologia)

Fonte: Jornal Diário de Marília

sábado, 12 de dezembro de 2009

Merry Christmas and Happy New Year!

Daqui alguns dias celebraremos o nascimento daquele que (segundo dizem) pregamos em uma cruz e assassinamos após torturá-lo. Arrotando peru e com nossas enormes barrigas cheias de leitoa, usaremos nossas bocas sujas para orar, de mãos dadas (a única vez no ano), por mais amor no mundo. E agradeceremos nossa fortuna, praguejando contra as injustiças da vida, pois pedir para os céus igualdade é fazer nossa parte. E lá fora, em um templo qualquer, com as finas palmas das mãos unidas e os joelhos marcados, o santo homem ora pelo pobre irmão. Aquele mesmo ateu pecador que tem as mãos grossas e os pés rachados do trabalho. Então; Merry Christmas and Happy New Year! Pois assim é mais chique, já que a mensagem é vazia.

Agora, falando sério, eu desejo pra mim (e pra você) um 2010 menos obeso (sem ter que tomar 7 Day Diet), uma conta bancária capaz de suportar as minhas vaidades, viagens, vadiagens e viadagens, diabetes controlada, muito rodízio (só com picanha, não me vem com abacaxi!), o fim da minha calvície e dos meus cabelos brancos (desejo também que eu tenha um cabelo liso, pois essa chapinha que eu uso é a causa do aquecimento global, há!), muita mulher e cerveja até eu cair, porque é isso que eu quero mesmo! Afinal, se eu quisesse mesmo mudar o mundo, já teria começado, não?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Agradecimento - Convite

Amigos,

convido a todos a assistirem o programa Visão de Mercado (www.visaodemercado.com.br) no SBT, neste domingo, às 10:30h. Estarei lá juntamente com o Sr. Marcio Nakamura, falando sobre a conquista do PRIME - Primeira Empresa Inovadora.

Para aqueles que não conhecem, o PRIME é um programa da FINEP (órgão de fomento Federal) que destinará R$ 240 mil por empresa, sendo que destes, R$ 120 mil são não reembolsáveis (a fundo perdido), para remunerar o empreendedor técnico, para a contratação de um gestor profissional e para a contratação de consultorias de mercado e de gestão.

Aprovamos 4 empresas na primeira fase do programa e duas na segunda fase, então, para aqueles que se interessarem em obter R$ 240 mil ou qualquer outra linha de fomento, estou disponivel para maiores informações, pois já estamos selecionando novos projetos para o próximo PRIME.

Crente de que nosso trabalho proverá nossas vidas e de que o suor dos nossos rostos é o senhor dos nossos destinos, aproveito o momento para agradecer o apoio e a fé de todos e esperamos aprovar mais projetos no ano que vem!

sábado, 21 de março de 2009

Letargia

Observei as bolhas se formarem no fundo do copo. Quinto chope. As bolhas ficam mais brilhantes e os reflexos mais opacos. Até ali eu me lembrava de ter negligenciado nosso relacionamento. Todas as vezes em que eu não me fiz presente. Todas as vezes em que eu a deixei na escuridão da dúvida. O álcool e o orgulho foram roendo minhas memórias. E eu cheguei até a acreditar que eu tinha feito o meu melhor. Acreditei que eu podia deixar tudo por conta do “amor”, que ele bastaria. A razão, ainda que falsa, era mais uma vez minha. Pensei que eu tinha feito certo, sim. Pensei que eu estava tentando melhorar todos os dias, sim. Entornei o copo e me desfiz num choro doído. Enegreci o mar de amor azul que me rodeava, envenenei a água que agora não mais podia matar minha própria sede.

De súbito, Friedrich, a raposa, me pegou pelas mãos. Levou-me até um quarto sem janelas, sem móveis, sem luz. Sussurrou no meu ouvido: morre de sede no mar, morre de sede no mar. Fechei os olhos e vi você, envolta no coração Dele. E eu estiquei meus braços na direção da cruz. Não para iluminar minha escuridão, mas para encontrar você, meu grande Amor. Encontrá-Lo seria encontrar você. Ajoelhei-me de forma nada familiar, e pedi a Ele que não me permitisse negá-Lo em momento algum. Entreguei-me pois, ao Sagrado, para o Amor Dele me levar até você. E a raposa sorriu.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Nada

Pela manhã; descobri a cura da AIDS, promovi a paz mundial e depois bati o record dos 100 metros rasos. Almocei com o presidente da ONU, que queria alguns conselhos sobre política internacional e também, é claro, pedir minha receita ganhadora do ultimo concurso de culinária que participei. Não tive muitos compromissos à tarde, então pude colocar minha roupa de morcego e combater o crime anonimamente. No fim do dia, pedalei por aí até encontrar a paisagem ideal para tirar umas fotos do por do sol, afinal, já faz dois anos que eu não ganho nenhum premio internacional de fotografia! Neste momento Babá me ligou, só para agradecer pelo slogan que fiz para campanha a presidencia dele, quem diria que um simples: “yes, we can!” faria tanto sucesso? Tirei as fotos enquanto eu anotava a idéia que tive para resolver o problema da fome mundial. No caminho para casa, descobri uma espécie não documentada de borboleta, fato que me inspirou a escrever um hai-kai ali mesmo. Jantei com alguns amigos, rimos bastante de nós mesmos, lembramos dos velhos tempos e fizemos planos para mais risadas juntos. Madrugada adentro, minutos depois de terminar um projeto de um motor movido a água, me senti cansado. Liguei para meu amigo Dadá, Laminha para os mais chegados, que me disse palavras confortantes e me convidou para ir mais uma vez ao Tibet, para meditarmos juntos. Adormeci em frente ao computador, no meio da minha tese de pós-doutorado em ufologia.

Sonhei que eu era um carpinteiro. Eu recebia os pedidos dos clientes e me encarregava de transformar as pesadas toras de madeira nobre em utilidades. Portas, janelas, armários, mesas, cadeiras, tudo era feito com amor. Aquela poeira toda do galpão era minha companheira. Eu manuseava as ferramentas pesadas com precisão e força. Sentia o suor na pele como uma grata recompensa pelo meu esforço. O cheiro de tudo ainda está nas minhas narinas. Assim como a sensação morna da sua mão a enxugar meu rosto quando cheguei em casa ao anoitecer. Banhou-me o corpo, tirando de mim todo o cansaço. Beijou-me a boca, tirando de mim todo o medo.

Acordei chorando, desesperadamente. Eu não tinha nada. Eu não havia realizado nada. Eu não era nada. Nada.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Adeus

Todos os dias, eu tento ser uma pessoa melhor. Leio mais, quem sabe eu acho algum texto bonito ou eu encontre um livro com uma história interessante. Escrevo mais, treino e disciplino a minha técnica para que ela possa trabalhar junto com as minhas emoções em algum texto que explique um pouco do que se passa aqui dentro. Estudo mais; filosofia, enologia, culinária, economia, direito, contabilidade, teologia, artes cênicas, enfim, tudo de tudo. Ouço mais, todo o tipo de música, procurando nas letras e melodias coisas bonitas. Corro mais, um quilômetro, dez quilômetros, vinte quilômetros atrás da minha forma. Trabalho mais, com a obstinação de quem sabe que está realizando. Ajudo mais, com todas as minhas forças. Oro mais, com fé. Enfim, faço o meu melhor. Por você.

E isso é tudo o que eu posso fazer. O meu melhor não é suficiente. Então, se o meu melhor é nada. O que eu sou, além de nada? A ultima coisa que me resta a fazer, é deixar você. Para você, viver sem saber que eu a espero, viver sem saber que eu a amo, deve ser tão difícil quanto viver como eu vivo hoje. É horrível. A dúvida nos encolhe, nos humilha, nos faz perder o controle. Nossa história tão linda não merece um capítulo assim.

Por você; eu morreria, eu viveria, com todos os medos do mundo, mas com a certeza de tê-la ao meu lado. Isso me basta. Sonhei que você me dava tua mão, e eu não a deixava se perder na multidão. Sonhei que você escalava as mais altas montanhas, e eu jamais a deixava cair, eu a escorava e a guiava. Sonhei que você brilhava com toda a intensidade da sua luz, e nestes momentos eu era apenas teu satélite. Sonhei que nós alinhávamos nossas faces e encarávamos o mundo rindo, como se ele fosse apenas mais uma das nossas tantas piadas secretas. E no meu sonho, quando você se cansava, eu era teu travesseiro (fofinho) e teu cobertor (quentinho). Sonhei. Sonho. Até hoje apenas.

Porque hoje eu vou deixar você.

Não sei mais o que eu quero ser. Meus heróis morreram aos poucos. Minhas referências se perderam. A imagem que eu criei para ser aplaudido, o é, e daí? O filme pode ser de terror, mas que no final o mocinho fique com a mocinha. Nada de “arte”, nada de “beleza”, só felicidade pura. Como brigadeiro! Como cheiro de chuva! Como arco-íris! Como por do sol! Como pamonha! Por que será que achamos mesquinho querermos ser felizes? “...escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência.” – Deuteronômio 30:19. A escolha é nossa? Eu não quero mais fugir da minha responsabilidade com a minha felicidade, com o enorme fardo de escolher sempre ser um idiota feliz! Feliz! Feliz!

Não vou dizer adeus. Na madrugada, enquanto estivermos abraçados, vou beijá-la na testa. E será o meu último beijo, pois a partir daí eu serei outro. Meu sorriso estará aqui para você. Eu estarei aqui para você. Mas meu coração vai desaparecer. Vou chorar sozinho. Soluçar baixo para não atrapalhar teu sono. Porque não quero mais sofrer assim. Não quero enchê-la de cobranças para que você me dê o que não tem. Pela manhã, vou lhe dar bom dia. Vou beijar tua boca, do mesmo jeito. E você não vai sentir a diferença. Porque você já não sente a diferença hoje. O meu “eu amo você”, é como “me passa o sal”. Não te toca. Eu ponho minh’alma num “eu amo você”, que você ouve, mas não entende. Vou sussurrar “eu amo você” váras vezes, oco, e você vai ouvir mais uma vez como vários “me passa o sal”. Mas a grande diferença estará em mim. No vazio. Na tristeza.

Porque hoje eu deixei você. E você nem percebeu.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz ano velho

Minha cara (metade?),

escrevo-lhe, não para fugir dos olhos nos olhos, mas, como você bem sabe, sou melhor com os textos que com os discursos. Aqui estou a uma distância segura das tantas coisas em você que me tiram o centro. Assim eu posso escrever e apagar, voltar atrás em curtos espaços de tempo, alterar o fim.

Hoje pela manhã eu pus minha cara para fora da janela. E me enchi de maresia. O cheiro do mar me invadiu, senti o vento, senti o sol. Minha alma sorriu como se hoje eu fosse o senhor do meu destino. Olhei para o horizonte, onde o oceano se confunde com o céu, e me senti forte, como se eu pudesse carregar o mundo nos meus ombros. Tudo isso aqui em Marília. Tudo isso porque eu acordei pensando em você. E no meio da fumaça dos carros, da paisagem urbana e cinza, eu olhei para trás e tive a certeza de que foi por você que eu me levantei da cama hoje. E nem sei mais quantas vezes eu me levantei por você, assim como eu também não sei quantas vezes eu caí por você.

Amarrei bem meu tênis, fechei a porta do meu castelo de certezas e caminhei na sua direção. No meio da rua, esperando você, eu senti um puta medo. Fiquei tanto tempo lá que pude sentir meus cabelos branquearem. E meus bíceps gelatinarem. E meus ossos doerem. E choveu. Meu sunny day virou rainy day. O mundo é cruel, baby. As pessoas fazem coisas estúpidas o tempo todo. Eu faço coisas estúpidas o tempo todo. Todos os drops coloridos que estavam no meu bolso, meu presente de casamento para você, derreteram. Protegi meus cabelos grisalhos com as mãos, mas como seria possível deter a tempestade? E meus doces manchavam minha calça. E eu ri. Ri contigo mais uma vez. Mais uma piada só nossa. Mais uma graça só nossa. Mais uma coisa que fizemos juntos em algum momento do nosso feliz ano velho. No meu peito, o vácuo da sua não presença, física e espiritual, me fez tremer mais que vara verde. Nosso conto de fadas feito de pequenas jujubas, não teria mais novas jujubas, não teria mais nossos pequenos grandiosos momentos inesquecíveis que faziam valer a pena a vida mais chata dos mais chatos personagens dos mais chatos filmes recheados com os mais chatos atores dirigidos pelos mais chatos diretores dos mais chatos estudios financiados pelas mais chatas industrias dos mais chatos produtos que não eram jujubas, muito menos jujubas vermelhas (as melhores indubitavelmente).

Voltei pro meu lado da calçada e dei as costas para rua. Ouvi você gritar desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas desculpas. Chorei. Que merda, esse fim eu não pude mudar sozinho. Tentei, mas meus braços fracos não suportaram a frouxidão do seu abraço. Meu amor perfeito, eu tentei, juro. Me desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe desculpe, mas nosso filho morreu de inanição. É, eu também achei que estávamos o alimentando direito.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A mulher mais linda da cidade

A mulher mais linda da cidade atendia por um nome bíblico. Nascida rica, fora estuprada pelo pai antes de completar 12 anos, era essa a história. Fugiu de casa para ser abusada por mãos desconhecidas, doía menos. Acabava com a sua beleza incomum riscando cacos de vidro no rosto, oferecendo os seios marcados por dentes aos velhos podres para que neles apagassem seus cigarros. Tinha nos braços marcas de navalha e agulhas. Nos pulsos os ferimentos infeccionados pelos cortes sucessivos.

Em um dia comum, nos conhecemos. Bar lotado de gente desaparecendo. Era sempre a melhor parte do meu dia. Não percebi quando ela se sentou, mas quando dei por mim ela estava na cadeira ao meu lado. Olhou na direção da minha cara engordurada por uns quinze minutos e depois me beijou. Pobre coitada, naquela hora nem saliva eu tinha mais. Na minha boca só muco alcóolico e úlcera. Me beijava com fome, mas sem pressa. Comia minha alma devagar enquanto passava a língua no céu da minha boca. Quando ela largou a minha nuca, peguei-a pela mão e a puxei para fora do bar. Na calçada, ela ia na frente. Demorou, mas chegamos em casa. No quarto, joguei minha carcaça na cama. Em pé diante de mim, ela me perguntou se eu a achava bonita. Antes que eu respondesse, ela arranhou o próprio rosto, fazendo nele mais feridas. “E agora, estou mais bonita?”.

Nos vimos outras vezes. Algumas vezes transamos, outras vezes passamos a madrugada conversando e bebendo. Eu quis cuidar dela, mas era só eu sair de casa para que ela sumisse. Passavam-se semanas até eu a encontrar de novo. E a cada reencontro, eu mal podia reconhecê-la debaixo de tantas novas cicatrizes. Naquele dia, ela me pediu para ir até a minha casa. Logo que chegamos ela se enfiou debaixo do chuveiro. Tomou um banho demoradíssimo e veio para cama sem se enxugar ou colocar as roupas. Deitou-se no meu colo e me olhou nos olhos. Me dei conta de que era a primeira vez que ela me dava os olhos preu olhar. Naquele instante fui consumido, chorei compulsivamente. Ela misturou as minhas lágrimas com a saliva da boca desnuda, beijando minha face como se me perdoasse.

Mais uma vez, acordei sozinho. Era hora de partir. A minha urgência não queria ninguém para machucar.

Anos depois, mesmo bar. Porém as pessoas que ali estavam já não eram mais as mesmas. Acho que as velhas desapareceram por completo. Uma puta qualquer me abordou. Olhou-me nos olhos. Sentou no meu colo. Fumou meu cigarro. Abriu a camisa e me mostrou o corpo que eu toquei de maneira mecânica. Arrancou sangue do meu peito com as unhas. Ajoelhou-se diante de mim e me fez gozar em sua boca. Limpou os lábios com as mãos e veio sussurrar no meu ouvido: “agora eu sou tua, vamos viver nossa história”. Já não me restava nada de mim. Atirei-lhe algumas notas amarrotadas. A estrada é a vida.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Encontro marcado

Quarto turvo. Ponteiros perdidos do relógio no chão. Nu, apoiei minhas mãos trêmulas na cama. Dolorosamente, me ergui. Tentei me encontrar. Meu estômago empurrava bebida barata garganta acima. Desisti de lutar, desabei no colchão úmido. Olhei o teto. Admirei o teto. Questionei o teto. Encarei o teto. E o dia se foi, acho. Tomei fôlego enchendo meus pulmões com dificuldade. Ergui-me num último esforço e consegui me sentar. Meu coração disparou, como se ele a tivesse visto antes dos meus olhos. E lá estava ela. Sentada numa poltrona a minha frente. Seu corpo emanava uma fraca luz azulada. Percebi que ela vestia minha camisa, nada mais. Um furacão atravessou meu peito, embaralhando-me os órgãos. Com o dedo indicador, ela me chamou. O som da minha pulsação ecoava no aposento. Arrastei-me até a beirada da cama, indo na direção dela. Senti meus olhos chorarem uma dor que eu não queria chorar. Sal nos meus lábios. Não pude ir além. Ela se levantou. A camisa branca deslizou por sobre a pele, até o chão. Com passos felinos, veio até mim. Encostou o sexo adocicado de desejo na minha boca salgada de tristeza. Toquei-lhe as pernas com as minhas mãos, sentindo com a alma cada centímetro lido. Firme, cravei nela minhas unhas, minha língua. E o silêncio se desfez num gemido pequeno e profundo. Lentamente ela escorregou diante de mim, ajoelhando-se. Lambeu as lágrimas do meus olhos. Beijou a minha boca e saboreou nela o próprio gosto.

(este texto recebeu Menção Honrosa no 3º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais - www.guemanisse.com.br)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Suponha que não somos imortais

Acordo assustado. Me levanto as pressas e sento na beirada da cama. Coloco os pés nos chão. Sinto como se eu tivesse dois pés direitos. Ou dois pés esquerdos. É como se meu corpo não fosse meu. Do avesso, me olho no espelho. Não há ninguém além de mim, mas não sou eu. Sem me demorar com essa sensação maluca, vou logo ao banheiro para me arrumar. Meu cabelo não quer ficar repartido no lugar de sempre, de jeito nenhum. Besunto a cabeça de gel e faço a barba com a mão direita, com a sensação sinistra de que eu sou sinistro. Engulo o café da manhã tão rápido que o gosto só vou sentir já na rua. Gosto de isopor, normal. Enquanto eu corro, percebo que todos ao meu redor também correm. O mundo inteiro acordou atrasado, penso. Entro no prédio onde trabalho rapidamente. O porteiro não está. Os elevadores estão vazios. O chefe ainda não chegou. Ainda afobado, ligo o computador. Olho ao redor e não vejo ninguém. Confiro a data no calendário: segunda-feira. Não é domingo ou feriado. Bom, pelo menos eu não vou levar bronca pelo atraso. Tic. Ouço um barulho em meio ao silêncio da sala vazia. Tic. Tac. Procuro pela origem do som. Tic. Tac. Tic. Gavetas. Nada. Tic. Tac. Tic. Tac. Armários. Nada. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Paredes. Nada. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Abro as janelas, percebo que sete luas estão dependuradas no céu. Bem ao lado do sol, que continua sendo um. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. E as pessoas continuam a correr. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Volto para minha cadeira. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Aperto os olhos com as mãos. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Mas que luz é essa que vem do meu peito? Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Abro a camisa e, aterrorizado, vejo. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Um relógio cravado bem na altura do seu peito. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Mas como isso foi parar aí? Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Olhe bem, percebeu que ele está em contagem regressiva? Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Meu Deus! Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Será? Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. O tempo está acabando! Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. E rápido! Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Corra! Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Saia da frente deste computador, seu tempo é curto! Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Vá logo, ela precisa saber! Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Ligue para ela, mande sms, e-mail, sei lá! Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Você tem que dizer a ela o quanto você a am

(este texto foi finalista do 3º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais - www.guemanisse.com.br)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Quebra-cabeças

Passado

Meu Amor, pálida no sofá. Tentando colocar no lugar as tripas que lhe saíam pelo profundo corte na barriga. Sangue e sêmem a escorrer pelas pernas, estupro. Desfigurada, olhava na minha direção e sorria, como sempre. Silêncio adornado pela sua oração afogada no seu próprio vômito. Negrume pegajoso da penumbra. Cheiro de abatedouro. Foi isso que encontrei ao chegar em casa. Conivência, os móveis estavam no lugar, a porta fora aberta com as chaves. Em pé no canto da sala, com as mãos a pingar uma bondade rubra, você ria, meu Amor. E eu ouço da sua boca: me sacrificar por você sim, viver para você não – assim fez o Filho, assim eu o farei, por ti. Vi meu amor morrer, no sofá e no canto da sala.

Futuro

Estou de volta a este túmulo, trago flores. A poeira denuncia o tempo que levei para retornar. Meus joelhos puídos de velho puído me pedem para sentar. Puxo uma cadeira, que range de dor quando eu faço desabar sobre ela meu peso. A claridade ameaça entrar por entre as cortinas. Tiro do bolso a última peça deste quebra-cabeças. Apesar de tê-la encontrado por acaso entre meus velhos diários, tenho a certeza de que foi você quem a deixou ali. Encaixo a peça e observo a imagem. Entendo, como você havia me dito que um dia eu entenderia. Quem tinha razão não importa mais. A pedras foram atiradas. As palavras desferidas. As oportunidades perdidas. A luz inunda a sala. Tarde demais. Sei que não vivi, mas será que amei?

(este texto foi finalista do 3º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais - www.guemanisse.com.br)

segunda-feira, 23 de junho de 2008

All the sex thing

Começo e fim di mim...
Pudim di mim…
Tudim ni mim…
Pudim di leite moça...
Tudim na doce moça...
Pudim di moça doce...
Tudim na doce boca...
Pudim di boca doce...
Tudim leite na boca...
Pudim di ti...
Tudim na boca tua...
Pudim di leite doce...
Tudim a escorrer do cantim...
di mim...

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Bunraku

O Omo-zukai Celestial, estuprando-me, tomava-me o corpo. O Hidari-zukai Supremo abraçava meus Irmãos Putos filhos de Putas com meus braços. O Ashi-zukai Onipresente dobrava meus joelhos com a aquiescência da minha boca que nada falava. E assim a Santíssima Trindade me fazia sorrir um sorriso de Outro. E a chorar uma dor de Outro. E a sonhar um sonho de Outro. Empalado pelo Pai, ao som do shamisen, eu cumpria meu papel no Bunraku dos Senhores Nada Divinos do Conhecimento Divino. Junto com o Rebanho dos Escolhidos Não Leprosos, eu repetia a Chuva de Néctar da Verdade do Tayu como se minha fosse, adorando Aquele que nos criou e adestrou através do medo para viver a louvá-Lo:

Pater noster, qui es in caelis
Sanctificetur nomen tuum;
Adveniat regnum tuum.
Fiat voluntas tua
Sicut in caelo et in terra
Panem nostrum quotidianum da nobis hodie.
Et dimitte nobis debita nostra,
Sicut et nos dimittimus debitoribus nostris.
Et ne nos inducas in tentationem;
Sed libera nos a malo.
Amen.

(este texto foi finalista do 3º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais - www.guemanisse.com.br)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Vambora

Enchi minha mochila de açucar. Verifiquei meus bolsos mais uma vez. Chaves, não. Confetes, sim. Dinheiro, não. Chicletes, sim. Documentos, não. Drops de morango, sim. Ótimo. De longe, eu, com dez anos, me olhava. O pequeno / eu estava sentado na minha / nossa bicicleta. Fazia bico. Sorria satisfeito. Me fez / me fiz, um gesto como se me incentivasse a ir. Vai garoto! Sufocado pelo medo, inundado de incertezas, mergulhei em você. Norah Jones / Eu dizia no rádio: come away with me... Apertava seu quadril contra o meu. Você resistia. Você queria. Afrouxava os músculos com doçura. Vinha lentamente ao encontro do nosso desejo. O corpo quer. A alma entende. O japonesinho / eu fazia bico. Sorria satisfeito. E o amor era sentido. Sem palavras, sem promessas, sem hora, sem lugar. Pleno a se realizar no momento em que se chocava contra o seu peito, pleno a se fazer existir no seu gemido tímido. O Tempo se tornava folha de papel. O Tempo se tornava fio de esperança. O Tempo se tornava cabeça de alfinete. O tempo se dobrava e desaparecia no fundo, bem no fundo. Não havia sonho, havia minha língua procurando seu sexo, havia minhas mãos a se perderem na infinitude dos sagrados segredos intocados do seu corpo, havia vida vivida. E o Binho / Fábio, fazendo bico, dizia: o amor não se fez perfeito nos corpos libertos pela benção dos homens, pelas alianças de metal frio colocadas nos dedos. o amor se realizou quando você o expulsou na direção da pequena, quando você deu sua vida a ela num formal Contrato Vitalício de Venda de Produção Futura de Beijos sussurrado informalmente nos ouvidos da contratante / arrendante / comodante / amante / amada / amada / amada / absurdamente amada. e a benção divina veio com o sopro / furacão / tsunami n’alma sua a lhe dizer: é ela! é ela! é ela! Fez bico. Sorriu satisfeito. Olhei para os seus / seus joelhos ralados. Subiu / subiu na sua / sua bicicleta inflado de coragem, explodindo de certezas. Pedalou / pedalou rápido. Mais rápido. A descida não é problema. Rápido. Cair não é problema. Mais força. Vento gélido. Viver não é problema. Rápido. Vento morno. Vai rapaz, esquece os joelhos! É ELA! É ELA! É ELA!

(este texto foi finalista do 6º Concurso Guemanisse de Contos e Poesias - www.guemanisse.com.br)

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Polvos, Ursos Polares e Burros

Viscoso como um polvo de ventosas infinitas, meu passado vai se tornando cada vez mais denso, pegajoso. Corto-lhe os tentáculos, mas a besta negra se regenera enquanto ri. Não sou mais eu quem escolhe as direções, é o molusco fundido ao meu coração quem me diz quais são os meus desejos. Fui alertado sobre o perigo de engolí-lo da maneira como eu fiz, mas eu era jovem demais, sabia demais. Comprimi o animal selvagem com as mãos ungidas de toda a sensatez do mundo e o empurrei goela abaixo junto com um choro que ameaçava vir. Os oito pés adentraram-me os órgãos, calaram-me a boca, baixaram-me a cabeça, fizeram-me ajoelhar aos pés do Cristo de madeira. Tornei-me homem de fé. O cefalópode quis assim. O dia está ensolarado, sem nuvens no céu. Percebo que no meu mundo de sombras, a minha é mais clara que a dos outros. Onde foi parar o resto da sua sombra, hein? - perguntou-me o enorme urso polar parado a minha frente. Sem me dar conta de que eu estava conversando com um animal, eu lhe digo secamente que não sei. Olha, eu posso estar enganado, mas isso tem a ver com esse monstro que está impregnado em você. Urso intrometido, eu não perguntei nada para ele. Essa coisa está lhe roubando a vida aos poucos, você não sente? O monstro sou eu, não posso me desfazer de mim. Senhor Urso Polar, eu sei o que está acontecendo, mas eu simplesmente não sei o que devo fazer. O urso acende um charuto e me oferece outro, que aceito. Ah! Você sabe! E o que adianta saber e não fazer nada para mudar? Meu filho, eu sei que essa coisa de mito da caverna é muito legal no plano filosófico, mas você não pode viver no mundo das sombras! Ninguém pode! - dizia o urso com um ar intelectual, como se me olhasse por cima dos óculos se ele os usasse. Ficou em silêncio enquanto soltava uma longa baforada, mas logo retomou o sermão. Você foi tão convincente com as suas mentiras que acabou acreditando nelas. Agora você virou escravo do seu passado. E o pior de tudo isso é que você encontrou refugio na sua própria letargia! Não pude contrariar o urso polar fumante. A única solução é enfrentar a luz, ir de encontro a verdade, meu chapa. Você não vai magoar ninguém mais do que já está magoando. Pare de viver nesses seus castelos de areia. Deixando tudo para depois, você está jogando a sua vida fora. E também está roubando a vida de pessoas que gostam muito de você, coisa que você não tem direito. Olhei para o charuto que eu havia acabado de ganhar. Tirei-o da embalagem, joguei fora o anel que o envolvia e cortei-lhe a ponta com os dentes. Senhor Urso, você tem fogo? - ele me estendeu seu Zippo prateado e o acendeu com habilidade, assim como nos filmes de Hollywood. Será que esse urso era americano? Dei um trago no charuto cubano do urso polar americano. Se eu entendesse alguma coisa de charutos, poderia tecer alguns comentários inteligentes a respeito deste, algo como: sabor trufado com notas de chocolate e um leve aveludado de nozes! Que ursinho de bom gosto! Vocês humanos gostam de contrariar a natureza das coisas. Eu posso até mentir para os outros, às vezes é preciso quando se trata de conquistar ursinhas, mas eu não minto para mim. Pescar salmões, dançar tango com as minhas ursinhas nas noites de quinta e fumar charutos, um urso polar não precisa de nada além disso! A vida é muito simples. Temos que deixá-la seguir seu rumo: começo, meio e fim. Aceite isso e livre-se dessa porcaria que você deixou entrar em você. Ele se levantou e sumiu sem deixar vestígios. Aquela estranha conversa de botequim não era própria dos ursos polares, normalmente eles preferem falar sobre futebol. Fumei o charuto até o fim. Enfiei meus oito tentáculos nos bolsos da calça e me deixei levar pela maré.

(este texto recebeu Menção Honrosa no 6º Concurso Guemanisse de Contos e Poesias - www.guemanisse.com.br)

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Escravos

Senhor

E o bêbado me encarava com aquele sorriso podre. O velhote mendigava por ali, eu acho. Nunca o vi na minha frente, nunca olhei pelos retrovisores. Melhor assim, para mim. “É Doutor, o senhor está fazendo uma coisa muito errada.” Dessa vez, por mais que eu tentasse, eu não conseguia fazer ele sumir. “Doutor, Deus não faz gosto disso que o senhor anda aprontando.” Comecei a suar. Sempre fui discretíssimo. Minha esposa nunca desconfiou de nada. E agora esse safado vem com essa conversa. Não acho certo enganar ninguém, mas não existe amor errado, existe? Ora, convenhamos, no meu lugar você faria o mesmo! As crianças não tem idade para compreender uma separação. Eu sei como é, afinal, meus pais são separados. Então eu tenho que suportar tudo calado. É o mais correto a se fazer. Tudo ao seu tempo. As cinzas do meu cigarro caíram na minha calça. Agora que eu percebi, ele se queimou inteiro sem que eu tivesse dado sequer uma tragada. Me peguei pensando na trepada de ontem. Nossa, aquela menina sabe chupar! “Doutor, o senhor sabe que até mesmo o Diabo encontra justificativa para os seus atos na Bíblia?“ Mas que merda! Eu teria quebrado a cara desse infeliz, mas a verdade é que ele parecia olhar através de mim como se eu não tivesse carne. Senti um espasmo na alma. Tantos muros e máscaras construidos a duras penas com dissimulação e mentiras, e agora um qualquer vem e me rouba a verdade como se batesse minha carteira. Os meninos não merecem discussões intermináveis, disputa pela guarda, disputa pelo cachorro, disputa pelo carro, disputa pela casa. Faço isso pelos meninos, me sacrifico assim pelos meninos. Respiro fundo, sinto o perfume da minha gostosa no colarinho da minha camisa. “Doutor, o mundo vai acabar, uma hora a conta terá que ser paga.” Agora chega! Me levanto, pago a conta, saio rápido sem olhar para trás. Essa cidade está cheia de pessoas que não respeitam a privacidade de ninguém. Todo mundo quer julgar todo mundo. Hum, estou tenso, preciso me aliviar. Essa pensação toda me cansou. Preciso de uma foda. Infelizmente, eu sei que vou ter que me virar sozinho, ainda bem que assino a Playboy. Ao menos para isso meu salário de fome dá. Hoje vou acabar com uma daquelas coelhinhas photoshopadas! Vou por cima, vou por baixo, vou de lado, vou de tudo quanto é jeito e sem preliminares. Beijinho, carinho, papai e mamãezinho, essa coisa romantiquinha de adolescente, ou melhor, de criancinha não me serve mais. “Depois que você conhece uma mulher de verdade, essas meninas de quinze anos passam a ter gosto de isopor” - murmuro enquanto dirijo sem ver a estrada. Chego em casa na ponta dos pés, achando que eu não estou fazendo barulho. Toda a casa dormia. Se fosse sempre essa paz, acho que eu não procuraria por bunda nenhuma na rua.

Senhora

A cartomante estava em transe. “A senhora vive com uma dúvida.” Senti um leve rubor na minha face. Mas de qualquer forma, o que ela dizia era genérico demais. Ela não tinha como saber da minha vida. “A senhora está dividida entre o certo e o errado.” Me vi cega, jogada numa tempestade de areia. Talvez ela realmente soubesse do que acontecia no meu coração. Eu olhava para as cartas dispostas na mesa, mas para mim elas não diziam nada. Mas a vidente falava direto com a minha dor, expunha a angustia que eu tentava esconder. Meu marido não suportaria o fim do nosso relacionamento. Tantas vezes eu o maltratei com as minhas infantilidades. Machuquei-o, humilhei-o. Ainda assim ele sempre permaneceu ao meu lado. Não sei se é falta de amor próprio, pois às vezes eu sinto como se ele me exibisse como um troféu. Hoje eu vivo a pagar minha penitência por todo o mal que eu fiz a ele. Ser um adorno, uma marionete, isso não me importa. Eu mereço que ele me trate assim. Enquanto ele quiser eu estarei sob dele. Não posso me entregar aos meus desejos egoístas sem pensar nele. Cheguei até o meu limite com esse sonho. Nos braços de outro eu nasci. De maria-chiquinhas, me lambuzei de beijos melados com drops de frutas, de cinta-liga chicoteei suas costas nuas até sangrá-lo. Fui princesa nos banquetes mais requintados, fui prostituta na garagem do seu prédio. Me deliciei com seus cortejos de cavalheiro, com o seu gozo a escorrer pelo canto da minha boca. “A senhora veio até aqui procurando uma resposta para esta dúvida que a persegue.” Nossa! Como de repente a minha vida deformada foi parar em cima desta mesa? Bastava saber ler, minha história estava ali. Me senti nua, envergonhada. Levantei-me derrubando os enfeites do balcão atrás de mim. Peguei as notas na carteira sem identificá-las direito. Joguei o dinheiro e saí tropeçando na cadeira. Meu Deus, essa bruxa me virou do avesso! Essas pessoas deviam ser proibidas de entrar assim na vida dos outros. Entrei no carro e busquei rapidamente a rodovia. Tudo o que eu queria agora era me deixar ficar na banheira. Relaxar sem pensar. Dormir sem sonhar. Antes disso, fazer amor com meu marido. Nada daquela montanha russa, das mordidas esfomeadas, dos arranhões a marcar a propriedade, de línguas a desencadear taquicardias. Afinal, amanhã eu tenho que acordar cedo. Preciso arrumar a casa, lavar a roupa, não posso me dar ao luxo de uma noite intensa assim. Tenho minhas obrigações.

(este texto foi finalista do 3º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais - www.guemanisse.com.br)

sábado, 22 de março de 2008

Gabriela

Antes da bala

Apertei a Beretta contra minha testa. Com os olhos abertos eu encarava o fim. Isso fazia de mim um corajoso? Ouvi o som distante das batidas suaves na minha porta. Respirei fundo. Guardei a pistola na gaveta, por sobre o exemplar empoeirado da Bíblia. Abri a porta suado, ofegante como se eu houvesse corrido uma maratona inteira. Olhei seus pés, você estava com aquelas sandálias douradas que eu tanto gostava. Você veio na minha direção, entrando na sala. Eu não recuei. Senti suas unhas marcando meu peito, seu nariz encostado na minha boca. Puxei seus quadris contra os meus e joguei você no chão da sala. Era para o meu cadáver estar ali. Arranquei suas roupas sem tirar minha língua da sua pele nem por um segundo. Os gemidos acanhados se transformaram em gritos de prazer e de dor. Perdi a consciência naquela mistura de saliva, suor e sangue. Acordei sozinho. Nu, no chão gelado. Me deixei ali, observando minha própria decadência. Você vinha e bebia minhas cervejas, enchia meus cinzeiros, me chupava e transava comigo feito uma prostituta. Naquela madrugada deixei minha negrinha no criado mudo.

Livre

Eu tive fé no futuro. Meu amor, quantas noites eu esperei por você. “Vamos nos encontrar em breve, tudo vai acabar bem”, você me disse antes de partir. Procurei seu cheiro no suor a escorrer nos músculos de outros homens, seus carinhos em mãos ásperas como lixas a me rasgar o sexo. Fui partida ao meio, despedaçada e escarrada em camas de desconhecidos. Tentei dormir para poder sonhar uma vez mais com o seu sorriso, para sonhar mais uma vez com o meu sorriso. Li tantos poemas, ouvi tantas músicas, mas não achei os meus sentimentos nas letras e nas vozes de ninguém. Retornei inúmeras vezes aos locais onde estivemos de mãos dadas. Eu podia ver você ali, mas aquela que você abraçava não era mais eu. Aquela menina se dissolveu no meu batom vermelho, nos saltos infinitos dos meus sapatos, na minha cara deformada pela pintura pesada. Depois de tanto procurar você, me assusto com a sua presença silenciosa. Sua alma está aqui comigo agora. Desejei tanto este momento, só que eu não sabia qual seria o preço do reencontro. Ouço você. Vejo você. Mas não consigo mais tocá-lo. “Me perdoe pelo que fiz comigo, pelo que fiz com você. Até logo, meu amor.”

(este texto foi finalista do 3º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais - www.guemanisse.com.br)

sábado, 15 de março de 2008

Santo

Cara

Sentada na beirada da cama. Olhava pela janela. O cigarro em sua mão já era todo cinzas. Hipnotizada. A fumaça cheirando alcatrão deixava sua aparência ainda mais mórbida. Triste. Eu fingia dormir enquanto a observava. Ela acreditava estar acordada. Atores. Representávamos papéis caricatos de nós. O quarto estava quente. O cheiro do sexo da noite anterior deixara o ar denso. Úmido. Nunca fomos sinceros. Inventamos nossa intimidade. Criamos nossas coisas em comum. Rimos de histórias que não aconteceram. Mudamos nosso passado. Mentimos sobre o que desejamos para o futuro. Ali a vida nos apresentava nossa conta. O preço a pagar por não viver. Fizemos o que era certo. A moça certa. O moço certo. O casamento certo. Mentiras aos montes. Rostos felizes. Festa. Buques jogados as solteiras encalhadas. Filhos. Alegrias amareladas. Eu não merecia mais. Nós não merecemos mais. Assim estava escrito em alguma maldita passagem de algum maldito livro de alguma maldita religião. Temos que pagar nossos pecados com a nossa felicidade. O rebanho fica feliz assim. Peguei-a pelo braço. Beijei-a com violencia. Senti o gosto forte de cigarros. Procurei por mim entre as coxas dela. Copulamos como animais. Gélidos. Somente instintos. Os olhos não se cruzaram. Nunca. Havia apenas desejo. Estocadas secas numa procura insana por vida. As respostas não vieram com o gozo. Com os gemidos. Com o grito. E os lençóis foram mais uma vez sujos com a nossa covardia. Saí de cima dela. Rápido. Alimentei minha úlcera com mais uma dose de whisky. Senti dor. Minha boca se encheu de um vômito sanguinolento. Eu estava vivo.

Coroa

Saltei inconsequentemente da janela do vigésimo oitavo andar do edifício de trinta e três andares localizado na avenida principal da cidade em que eu nasci. Impressionante o modo como minha cidade natal cresceu desde o tempo em que eu corria pelas ruas descalço empinando papagaios e marcando gols nos incríveis estádios que eram as ruas todas do meu bairro. O vento desmanchava meu cabelo penteado cuidadosamente e amassava minha roupa que eu havia passado com tanto esmeiro na noite passada. Na verdade eu não planejei saltar pela janela naquela manhã ensolarada daquele verão quente daquele ano frio. Ninguém planeja voar sem asa-delta ou sem avião ou sem balões ou sem asas de anjo assim tão sem medo. A insanidade pode ser a normalidade quando se deixa de querer ser perfeito para ser apenas e tão somente feliz. O pó de pirlimpimpim que Sininho me deu quando eu era moleque deve ter sido levado ralo abaixo nos incontáveis banhos que mamãe me obrigava a tomar sempre que eu retornava enlameado da Terra do Nunca. Minhas asas de Ícaro já haviam derretido no mesmo sol que me levou a inocência pueril e me trouxe as rugas e a sensatez burra dos adultos tristes. Sem meus incontáveis mitológicos artifícios de contos-de-fadas o chão se aproximava velozmente e arrepiantemente meu corpo ainda pesava muito mais do que o ar que insistentemente me cortava o rosto. Lembranças de brigadeiros comidos sem culpa nenhuma se misturaram com a de beijos dados sem culpa nenhuma com arrependimentos de palavras soltas em momentos impróprios. Sorrisos sorridos antes de virarem gargalhadas escandalosas vieram também com os nós-na-garganta que antecederam choros intermináveis e incontroláveis recheados com as maiores dores que pudessem haver doído em alguem neste planeta. O passado vívido em todas as suas cores e gostos disparava nas minhas pupilas como raio a iluminar o réquiem da minha existência de prisioneiro das coisas sem importância. Alucinações deslizavam pela minha mente a duzentos quilômetros por hora naqueles segundos que duraram dias e se misturavam ao que um dia foi real para mim. Uma linda princesa com os cabelos presos em tranças de dez metros me sussurava a poesia da vida nos meus ouvidos enquanto me alisava a testa. Mamãe dizia-me com ar de sabedoria tipico das mamães que as raridades eram para os raros e que eu levasse um agasalho ao sair pois poderia fazer frio. Um famoso poeta morto me perguntava aos gritos se o meu ceticismo havia derrubado até mesmo Deus dos meus templos. Um escritor ainda vivo me dizia olhando por cima dos aros grossos do seu óculos que não havia tragédia alguma no morrer dos amores. Todos pareciam saber que suas verdades eram verdades independentemente dos meus credos e que não existem ateus diante da face magra da mulher com a foice. Me veio um cheiro azul de lírios amarelos acompanhado de uma sensação vermelha de conforto no meio da incerteza cinza da negra queda.

(este texto foi finalista do 3º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais - www.guemanisse.com.br)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Ciclos

Em 17 de dezembro de 2001, eu estava na Avenida Paulista, no prédio do Banco do Brasil. Deixei minhas camisas do São Paulo Futebol Clube, minhas calcas jeans rasgadas e minha coleção de bonés em casa. Troquei tudo por três calcas sociais pretas e camisas de cores diversas (comprei na Botti, o preço é bom, viu!). Naquele dia eu coloquei uma camiseta amarela, e acrescentei o "Banco do Brasil" ao meu sobrenome.

Tudo era bonito! Eu disse "era", porque quando eu cheguei a Promissão eu pude ver o que é trabalhar em um banco. Trabalhei até tarde, saí da agência algumas vezes depois das 22 h. Trabalhei aos sábados. - nessa parte do texto meus colegas devem estar rindo do "trabalhei", mas a verdade é que eu trabalhei mesmo (algumas vezes) - Fui escriturário, fui caixa, fui assistente e agora sou gerente. Mudei diversas vezes de casa (casinhas, casonas, apartamentos e afins...), agora eu ando a pe (Gol, Vectra, Corolla, bye bye...), eu bebo H2O (but I miss you, Coke...), mas ainda não ouço pagode (não tenho esse jeito moleque de ser inimigo da hp).

Resumindo, somos mesmo como o mar, sempre o mesmo, nunca o mesmo. Mudam os ideais, mudam os olhos, mudam os vícios e os amores, mas o coração e a fé persistem. Paguei o preço, fui contra a maré. Ri, bebi, corri, joguei, enrolei, suei, chorei com meus amigos (muito mais do que colegas). Conheci grandes pessoas, conheci pequenas pessoas, conheci pequenas pessoas grandes, conheci grandes pessoas pequenas.

Agora, 17 de dezembro de 2007, eu vou me embora para Passárgada! Tudo bem, Marília não é tudo isso, mas eu já não me encontrava nos lugares por onde eu andava (frase emprestada da Ana Carolina). Resta-me apenas agarrar os meus sonhos com as duas mãos. Quando o seu sonho se apresenta a você como uma possibilidade (e ele SEMPRE é uma possibilidade), não há outra escolha possivel a não ser se atirar em direção a ele. Existe um ditado chinês que diz: quando a linha da vida de uma pessoa toca a de outra, elas jamais se separam totalmente. Eu espero sinceramente que isso seja verdade. Vejo vocês por aí. Obrigado por tudo. Contem comigo sempre. Valeu a pena.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Bolinho de chuva

Mais uma vez, pé ante pé, cheguei em casa de madrugada. Passei pela cozinha e tomei um copo d'água sem acender as luzes. Tomando cuidado para não fazer barulho, escovei meus dentes enquanto me encarava no espelho do banheiro. O corpo cansado pedia pelo travesseiro, ainda assim, não dormi imediatamente. Jogado na cama, senti seu perfume no meu corpo. Eu não estava acordado, mas ainda não dormia. Nesse estado intermediário onde o sono se funde com a consciencia, eu me vi novamente ao seu lado. Semi-consciente, eu me desprendia de todos os medos, de toda a insegurança. Eu não mais esperava. E corria na sua direção. Gritava com todas as minhas forças, para que o mundo ouvisse o que o meu coração me sussurrava: EU AMO VOCÊ! Deixava me tomar pelo mais puro egoísmo, pedia desesperadamente que você fosse minha, só minha, por toda a eternidade. Esfomeado de você, eu a abraçava como se fosse possível segurar a sua alma com meus braços fracos de menino. Minha cabeça pesava duas toneladas, minha garganta estava seca, minha pulsação ia a mil. Embriagado de sono e cansaço, meus desejos mais íntimos haviam tomado conta de mim. Eu já não me preocupava em libertar você com meu amor perfeito. Aliás, eu não queria saber de perfeição nenhuma. Só queria você para mim. E queria que você me quisesse. Assim, quando nossos quereres se encontrassem num unico querer egoista e imperfeito, eu me sentiria mesquinhamente feliz! Supremamente feliz! Ah! Que alegria fugazmente passageira nihilista mais infantilmente deliciosamente egoísta! Num segundo eu estava em outro lugar. Me vi sonhando. Agora sim a consciência havia me abandonado por completo. Há! De posse do meu incrível laço de laçar amores arredios, subi no meu corcel (que não era um Ford 78) e segui firme em direção as nuvens brancas de algodão doce que sustentam castelos de jujubas onde moram princesas de contos de fadas cheios de finais felizes. Dentro do castelo, procurei o lago de groselha e avistei você ao longe, comendo deliciosos bolinhos de chuva feitos pela rainha, sua mãe (a mãe das princesas são rainhas), generosamente cobertos com canela e açucar. Com a minha habilidade de cowboy dos filmes de John Wayne, lancei o laço ao longe, laçando a minha princesa de açucar e canela lambuzada. Delicadamente, mas com firmeza (hai que endurecer, pero sin perder la ternura, jamás, não, Guevara?), trouxe você até mim. Olhei bem dentro dos seus olhos de ressaca de Capitu e você me disse aquilo que me faria valer a vida toda. Naquele instante de beleza e amor, onde a sonata da paixão tocava ensurdecedoramente, eu me esqueci dos anos que me arqueavam as costas, aumentavam os meus arrependimentos e diminuíam minhas esperanças. Ali, sentindo o perfume doce dos lírios amarelos que compunham nossa cena romântica, você me disse: oi. E fugimos felizes. Construímos nosso próprio castelo no banco de trás de um corcel 78 (que não era um garanhão manga-larga marchador). Dentro do clássico automóvel, passamos a viver nosso tão desejado amor de garagem. Sentei no cantinho e chamei você para os meus braços, onde, aliás, era o seu lugar. Você me veio com seus beijos nada diets, doces como uma chuva de néctar, e choveu em mim. Final feliz? Não. Apenas o começo de uma plena e calórica tempestade sem fim de amor.

domingo, 27 de fevereiro de 2005

O amor é inaudível

Eguchi chegou a casa de Hikari na mesma hora de sempre, oito da manhã. Chamou a irmã pelo apelido dado por ele mesmo há sessenta anos atrás: - Hikichan! Rapidamente a porta se abriu e ele foi recebido por Hikari com aquele mesmo sorriso doce que ele conhecia tão bem. Entreolharam-se durante alguns segundos antes dela o convidar para entrar. Sentaram-se na sala. Eguchi tirou o jornal que carregava embaixo do braço e o colocou na mesa. Hikari pegou sua caixa de apetrechos de tricot. O velho começou sua leitura enquanto a irmã preparava seus novelos para o tricot. Assim permaneceram durante uma hora. Pontualmente ás nove, Eguchi levantou-se, beijou a testa da irmã e postou-se à porta. Hikari agilmente deixou suas agulhas de lado para acompanhar a saída do irmão. Entreolharam-se novamente por alguns segundos. Despediram-se.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2004

Vidas ceifadas, amores eternos, sonhos perfeitos.

Chove, o mar sacode o navio provocando minha mente com recordações de grandes desastres, de tragédias. Eu vejo a água raivosa se chocar violentamente contra o casco frágil. Toda a minha prepotência, minha crença inabalável nas virtudes das coisas criadas pelo homem, vai caindo diante da indiferente força divina.

A cada sopro de Deus, vou acreditando cada vez mais que isso tudo é real. Acabo me dando conta que nunca viverei o que planejamos juntos. Este é o recado anotado nos raios incessantes da tempestade. A morte e seu fedor se fazem presentes na imensidão negra das águas revoltas.

Agora eu estava livre de todo o medo, recebia esta última benção para que eu pudesse, ao menos uma vez, sentir a plenitude da vida sem amarras. Com meus olhos límpidos, sem a névoa turva da covardia a me obstruir a visão, eu finalmente soube qual era a resposta da pergunta que me atormentou durante muito tempo: por que eu não disse que amava você?

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

Quando os anjos falam

Suavemente, ela acabou por pousar na minha mão. Abriu e fechou suas asas azuis algumas vezes e ali permaneceu. Eu já havia visto inúmeras borboletas na minha vida, mas esta parecia diferente. Seu azul cintilava nas minhas pupilas, brilhava como uma chuva ofuscante de estrelas.

Talvez ela não fosse apenas uma borboleta, quem sabe fosse uma fada. Centelhas de luz envolviam aquela criatura mística diante dos meus olhos incrédulos. Eu podia vê-la dançar, flanar sobre a pista de dança que era a palma da minha mão. Eu podia vê-la sorrir pra mim como se dissesse para acreditar no que o meu coração dizia e esquecer o que a razão gritava.

Fechei meus olhos. Mesmo assim pude ver aquela figura angelical se aproximando ainda mais de mim. Senti minhas certezas desabarem, o que eu achava absoluto agora se mostrava falso. Havia uma magia densa ao meu redor, eu já não podia mais sentir o chão. Entorpecido e desnorteado, ouvi a pequena sussurrar no meu ouvido: “Tua fé fará você andar sobre as águas. Escolha o caminho que poucos escolhem, pois este é o teu caminho”.

domingo, 1 de junho de 2003

Sadako, aishiteru.

Os efeitos da radiação apareciam velozmente. O corpo frágil do menino desmanchava-se em pus e sangue, os gânglios inchavam, os órgãos se liquefaziam. Seus cabelos finos de criança agora faziam companhia para poeira acumulada no chão da enfermaria.

Ignorando a dor, as mãos delicadas continuavam a dobrar tsurus, um após o outro. Sua inocência lhe dizia que ao completar sua milésima dobradura, um desejo seu se realizaria. Obatian jamais mentiu. Então, quando terminasse o milésimo tsuru, ele poderia voltar para o abraço dos pais, comer uma grande tigela de arroz e ficar o dia todo observando Sadako pela janela do seu quarto.

Manuseando seus papéis coloridos, por um momento, os fantasmas luminosos que passeavam pelo quarto desapareciam e ele voltava seus pensamentos em preto e branco para o passado. Recordava-se da primeira vez em que viu o mar, da primeira vez que viu Sadako.

Forças da natureza, o mar e a garota eram assustadoras, tentadoras. Ele sabia que não sobreviveria ao ultrapassar seus limites dentro das águas, dentro dos mistérios quentes daqueles olhos amendoados, mesmo assim ele se atirava na direção do desconhecido, do desejado. Sadako era parecida com o mar. Sadako era o mar; sempre o mesmo, nunca o mesmo. Uma imensidão azul que alternava momentos de calmaria com tsunamis destruidores, ela era o começo e o fim dos alumbramentos dele.

Cada vez menores, os pequenos pássaros batiam as asas assim que eram finalizados. Levavam nos bicos de papel toda a vontade do pequeno em viver um minuto mais e a sua incompreensão do por quê ter nascido para amar da maneira intensa como ele amava, já que a sua vida seria tão breve.

(este texto foi finalista do 3º Concurso Literário Guemanisse de Minicontos e Haicais - www.guemanisse.com.br)